Depoimentos

Sônia Dimitrov Muniz Pimenta
Esposa de Sérgio Pimenta

“Eu me lembro do Sérgio dedilhando seu violão no escritório de casa, mostrando uma nova canção, rascunhos de letras em pedaços de papel, brincando com os filhos, sua gargalhada grave e gostosa. São passados 38 anos, mas as lembranças ainda estão vivas na memória.

 

Nós fomos apresentados em outubro de 1979, em um encontro anual de ex-participantes de Vencedores por Cristo. Começamos a nos corresponder, nos víamos nos “Encontrões de VPC”, até começarmos o namoro em maio de 1980. Casamo-nos em setembro de 1982 e ele fez a música de entrada do nosso casamento: “Fim de outono”, registrada posteriormente em um CD de músicas de casamento de VPC.

 

Participávamos do grupo Semente.

 

Eu tinha meu consultório de Odontologia e um emprego. Então, para que eu não precisasse parar, decidimos morar em São Paulo. Perto de uma estação de metrô. Ele pegava o metrô antes das 5h para chegar no quartel em Campinas às 7h. Nunca se atrasou.

 

Renato nasceu em novembro de 1984 e, nessa época, Sérgio havia sido transferido para uma unidade no Ibirapuera. Mas, pouco depois, no início de 1985, nos mudamos para o Rio, onde ele teria que fazer um curso de aperfeiçoamento de oficiais, a ESAO.

 

Juliana nasceu em março de 1986, quando ele já tinha terminado seu curso e teve a possibilidade de continuar servindo o Exército no Rio.

 

Enquanto isso, vinha para São Paulo para continuar a participar do grupo Semente, contribuindo no instrumental, vocal e com suas músicas.

 

Sérgio era muito disciplinado, responsável, perfeccionista, humilde, amigo leal, educado, firme quando necessário, mas muito gozador. Poeta e compositor. Mas sempre procurando melhorar. Quase todas as suas músicas foram feitas para falar do Deus a quem ele amava e servia e do Seu filho, Jesus. E a “facilidade” com que ele as produzia faz-me pensar que Deus tinha mesmo algo especial para ele. A notícia de sua doença, já em estado terminal, foi um choque para nós e para todos que o amavam. Foi um período de muito sofrimento.

 

Iríamos completar 5 anos de casados quando Deus o chamou para si. Deixou 2 filhos a quem ele amava e um legado precioso de música e poesia.

 

Mas, graças a Deus, nossa vida não se resume ao que vivemos aqui. Nossa esperança está em Jesus, que “desde há muito já foi preparar lugar para nós”! Aleluia!”

Renato Dimitrov Muniz Pimenta
Filho de Sérgio Pimenta

“Eu não me lembro do meu pai. Quando ele se foi, eu estava prestes a completar três anos, e naquela época ainda não havia celulares ou gravações em nuvem. Mesmo assim, considero-me abençoado por ter tantos registros dele: entrevistas, shows, gravações caseiras. Por ele ter se conectado com tanta gente através de grupos como Vencedores por Cristo e Semente, até hoje tenho a alegria de conviver com muitos de seus amigos, e de ser amigo dos filhos deles.

 

Apesar de não ter memórias de experiências minhas, eu construí lembranças a partir desses registros, assim como de depoimentos e comentários da família e amigos — e talvez até de ecos das minhas próprias vivências.

 

Penso nele como filho, um militar, filho de militar, negro, que viveu ainda criança a mudança do Rio de Janeiro para Manaus e, já adolescente, o retorno ao Rio, em meio à separação dos pais. Penso nele como um profissional dedicado, conciliando o Exército e a música, a brasilidade e as Escrituras.

 

Penso nele como um pai carinhoso e divertido, mas ao mesmo tempo disciplinado e rigoroso. Acho que ele iria jogar bola comigo e ir ao estádio, mas não me deixaria matar aula.

 

Tenho saudades do que poderia ter sido. Às vezes me pego pensando o que ele acharia de uma decisão minha, ou o que me aconselharia a fazer.

 

Hoje, com meus 40 anos, penso nele com 32, cheio de sonhos e planos. Penso nele, às vésperas da partida, sabendo quantos desses planos ele não veria se realizar aqui, confiando que a resposta certa vem de Deus.

 

Sou grato a Deus pelo seu legado musical, mas também pessoal. Grato pela mulher maravilhosa com quem ele escolheu se casar, e que sempre foi uma mãe tão presente.

 

Sou grato a Deus até por essas memórias inventadas, essas fantasias que eu construí ao longo das décadas, mas que continuam a me inspirar como pai, marido, profissional e cristão.

 

Que este livro sobre a história e a obra do meu pai nos ajude a nos lembrarmos dele — e, mais do que isso, seja um instrumento de Deus para o seu desenvolvimento musical, pessoal e espiritual. À Ele toda a glória.”

Juliana Dimitrov Pimenta Silveira
Filha de Sérgio Pimenta

“Eu sou filha do Sérgio Pimenta, e isso sempre foi motivo de alegria e orgulho para mim. Quando ele faleceu, eu tinha somente 1 ano e meio, então sei que as memórias que eu tenho, foram na verdade construídas com o tempo, através de fatos, fotos, histórias pessoais e testemunhos.

 

Sei que ele era militar por carreira e era músico cristão, tocava violão e cantava muito bem. Na verdade, a história que me contaram é que ele aprendeu a tocar violão para impressionar uma garota. Mas sei que Deus já tinha planos traçados antes mesmo dele aprender.

 

Foram mais de 400 músicas/letras através da sua poesia, parceria com amigos e muitos versículos da Bíblia. Sempre ouvi que ele gostava de estudar o dicionário para encontrar palavras ou rimas que não fossem convencionais para suas composições, além dos acordes mais complexos e pouco convencionais. Ouvir os amigos e as histórias em comum sempre me fez sentir mais perto dele e fico impressionada como ainda hoje, quase 40 anos após a sua morte, a sua música continua ecoando e fazendo tanto sentido! Mas esse é o nosso Deus! Tão vivo e atemporal!

 

A presença do meu pai sempre foi muito viva em casa, minha mãe sempre fez questão de falar sobre ele, dizer o quanto ele estaria feliz e orgulhoso em cada fase das nossas vidas, como ele nos amava e principalmente como amava a Jesus. Não sei se um dia vou entender por que ele partiu tão cedo. Tive crises sim ao longo da vida por querer que ele estivesse aqui. Mas em todo o momento tive a certeza de que embora o Senhor o tivesse levado, Deus esteve presente na nossa casa e nas nossas vidas todos os dias.

 

Hoje quando vejo meus filhos com o pai deles (meu marido) vejo como teria sido gostoso ter tido a oportunidade de viver tudo isso também. Honro o trabalho árduo da minha mãe de cuidar de mim e do meu irmão. Meu pai não poderia ter escolhido uma esposa melhor! Sou grata ao Senhor por essa herança bendita que recebi, me alegro por ver meus filhos nos caminhos do Senhor e por poder ver essa bênção geracional sendo perpetuada! Louvado seja o nome do Senhor!”

Ilsi Muniz Pimenta Lobato
Irmã de Sérgio Pimenta

“Gostaria de contar para vocês uma história. A história de dois irmãos: Sérgio e eu. E, para entendê-la, vocês precisam saber que éramos o oposto um do outro.

 

Eu, a extrovertida, cheia de energia.

 

E o Sérgio, o irmão mais velho, profundamente tímido.

 

Nossa dinâmica era mais ou menos assim: ele, trancado no quarto, buscando silêncio. Eu, do lado de fora, batendo na porta… insistentemente. [*Risos*]. Batia até perceber, pelo som do silêncio, que ele estava realmente irritado. Quando ouvia os passos dele vindo me “pegar”, eu corria para o meu quarto, trancava a porta e gritava: “Não me pegou!”

 

Era nossa dança particular.

 

Mas então, algo mágico aconteceu: chegou o violão. E a porta do quarto dele não se abriu apenas para um corredor, mas para toda a casa. Aquele era o fim dos meus “ataques”.

 

Na Manaus daquela época, aprender música não era fácil. Meu irmão comprou um livro do Dilermando Reis e foi dali, daquelas páginas, que os primeiros acordes começaram a nascer. Alguns eram difíceis, teimosos…, mas o Sérgio tinha uma determinação quieta. Ele não descansava até transformar o complexo em simples.

 

E foi assim, nesse processo, que as primeiras composições surgiram. Acordes novos se somavam a canções novas. No início, eram melodias simples, mas logo foram ficando mais elaboradas, mais profundas.

 

Aí veio o nosso pacto natural. Sérgio, em sua timidez, compunha nos bastidores. E eu, com minha voz, cantava. Descobrimos que aquela música era uma chave. Uma chave que abria portas para o louvor e a adoração, tanto na nossa igreja quanto na escola, que sempre incentivava eventos culturais.

 

A vida nos trouxe para o Rio de Janeiro. Começamos a congregar na Catedral Presbiteriana, e foi lá que o grupo Alegres na Esperança abraçou o Sérgio. Eu ainda era nova demais para participar oficialmente, mas era a “groupie” de plantão, presente em todos os ensaios – muitos deles, diga-se de passagem, aconteciam na nossa sala de casa.

 

Depois, veio a AMAN, em Resende, e a música do Sérgio encontrou asas novas. Durante a semana, longe de casa, uma nova composição brotava. Ele fazia arranjos para cada voz, meticulosamente. Formou um quinteto na Catedral, e aos domingos, depois do culto da manhã, a gente se reunia para ensaiar. O louvor da mocidade, à tarde, era embalado por aquela linda harmonia. Foi um ritmo de vida, um tempo abençoado, que durou anos.

 

Um marco importante foi a passagem do grupo Vencedores por Cristo pelo Rio. Aquele encontro foi como um megafone para a música do Sérgio, que começou a ser ouvida em muitos outros lugares, tocando corações longe dali.

 

Hoje, quando olho para trás, agradeço a Deus por um lugar específico. Um lugarejo no Amazonas chamado Iranduba. Foi aquele nosso lugar de encontro. O lugar onde, entre estrelas brilhantes, a imensidão do Rio Amazonas, pores do sol de tirar o fôlego e a grandiosidade da floresta, nós dois, o tímido e a extrovertida, conhecemos a grandeza do Deus que adoramos.

 

E descobrimos que Ele usa todas as personalidades – a quieta e a falante – para compor a melodia mais linda de todas: a melodia da fé.”

João Alexandre Silveira

“Sérgio Pimenta foi, sem sombra de dúvida, quem norteou, senão toda, a maior parte da minha musicalidade, ao ir adiante dos padrões importados da Música Cristã de seu tempo e dedicando-se a ser confessional e brasileiro na mesma intensidade, coisa rara, ainda nos dias de hoje!

 

Muita, senão toda minha forma de me expressar musicalmente, seja com voz e violão ou com minha banda, tem a ver com sua responsabilidade de compor, tocar, argumentar e procurar caminhos harmônicos, melódicos e poéticos, para dizer coisas simples de forma requintada e coisas profundas de forma simplificada!

 

Nas poucas vezes em que estive frente a frente com ele, sua maneira de tocar violão, única e arrebatadora, entremeando acordes distintos e bem colocados em harmonias que davam todo sentido as suas letras, me levou a querer fazer o mesmo, tanto quanto eu pudesse!!!

 

Gratidão eterna, honra, respeito e continência a Sérgio Pimenta, por dignificar o nome de Jesus, Seu e Nosso Senhor e Salvador, com tanta categoria!!”

Jorge Camargo

“O que eu gostaria de dizer sobre o Sérgio é que eu tomei contato com o trabalho dele a partir do álbum de “Vento em Popa”.

 

Eu era um garoto de 15 anos, eu lembro que eu escutava esse disco sem parar no Fusca Branco do meu pai, no toca fitas do fusca branco do meu pai, na porta de casa. E esse álbum marcou minha vida profundamente.

 

Através dele, eu tomei consciência do que eu gostaria de ser e fazer da minha própria vida e o Sérgio foi um dos personagens principais desse álbum como compositor e, também, como músico participando dessa produção.

 

Anos depois, eu tive a alegria de conhecê-lo quando fui convidado pelo Nelson Bomilcar para participar do grupo Semente. Eu era um garoto ainda de 19 anos de idade e tive esse impacto de conhecer essas pessoas que eram minhas referências musicais, o Sérgio era uma delas.

 

Durante cinco anos, eu tive a honra, o privilégio de conviver com ele, tocamos em muitos lugares, produzimos juntos três álbuns e as minhas memórias do Sérgio são as melhores possíveis de um camarada calado, sério, circunspecto, mas de um coração enorme, de um talento imensurável. Tanto como violonista, como intérprete e principalmente como compositor, tanto de letra quanto de música.

 

A sua memória, tantos anos depois da sua partida, permanece intacta e a sua obra, suas composições, suas canções, estão aí, são para além do tempo. E eu me sinto muito privilegiado por ter participado de tudo isso e por ter tido a oportunidade de conviver com ele.”

Quico Fagundes

“Eis-me aqui em 2025 voltando a falar sobre o Sérgio Pimenta e seu legado. Lá se vão quase 40 anos de sua partida, ainda tenho suas músicas em minhas mãos, e o seu sorriso no coração. Escrevo “só o suficiente” como ele diria, numa época em que se exige falar qualquer coisa em 120 caracteres no máximo! Me pergunto: puxa, como o Sérgio viveria no mundo de hoje, nos seus 70 anos? Seria um sujeito ranzinza, insistindo nos valores do passado (igual a muitos de nós), ou seria um jovem-idoso ainda motivado e interessado no mundo moderno? Fico com a segunda hipótese, na veia, no véio, ‘of course’, imaginando-o para lá de contente a acalentar seus netos no colo.

 

Para entender o sujeito múltiplo que ele era, é preciso colocar num liquidificador: a carioquice, a música brasileira dos anos 60-70, o chorinho de Pixinguinha, a disciplina militar, a devoção total a Deus, as mãos limpas, o coração puro, a impressionante sensação de que haveria um “ponto final” (como ele falava nisto!), o amor à família, o foco (irritante) que o fazia evitar conversas tolas e voltar ao violão para produzir muito mais do que os outros (nós), e seguiríamos por aí. Minha esposa Susana pediu: escreve aí que ele era o mais consagrado ao Senhor e que toda sua música sempre foi para a “maior glória de Deus”. Era uma pessoa bonita e continuaria bonita até hoje!

 

Isto mesmo. Ninguém mais do que ele amou a Deus sobre todas as coisas e o próximo, o brasileiro de todas as influências musicais para falar de Jesus. Compôs valsa-carioca, chorinho, bossa-nova, samba, baião, até jazz e outros estilos sem o menor preconceito, porque Jesus para ele bem que podia ser negro, tá, não cheguemos a tanto, mas moreno, de cabelo escuro e falando português, ou carioquês.

 

Ó Deus, te damos graças pela vida do Sérgio! Reconhecemos Jesus em tudo o que ele fez e nos deixou. Amém.”

Guilherme Kerr Neto

“Então, contar um pouquinho da história de como eu conheci o Sérgio. Nós estávamos na Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro. Ele era membro daquela igreja, chegamos lá e o pessoal falou: “nós tivemos um concurso de música aqui na igreja e das dez músicas classificadas, das ganhadoras, três eram do Pimenta”.

 

Mas, eles disseram, você não quer ir lá ouvir, porque nós estávamos preparando o trabalho do Vento em Popa, que era um trabalho com autores brasileiros.

 

Aí ele começou a cantar, ele cantou, eu acho que a primeira música que ele cantou foi a música que ganhou o festival. Falei, pô, bacana essa música, tal, se tem outras. Aí ele cantou mais uma, mais duas, mais três, quatro, cinco. Falei, poxa, tem bastante música, se tem mais do que isso. Aí ele tinha um cassete no bolso, alguém já tinha falado que a gente ia conversar com ele, ele trouxe um cassete, tirou o cassete e me deu.

 

Eu levei para casa, não sei se tinha umas 30 músicas lá, tudo linda e tudo bossa nova, já músicas com outro tipo de sofisticação. E eu fiquei encantado com o Pimenta, com a música dele, e perguntei se a gente poderia usar essas gravações e tal. E aí iniciou, na verdade, uma amizade, porque ele não tinha nada na época a ver com o Vencedores, ele era um membro de uma igreja.

 

Claro, ele tinha influências de ouvir o Vencedores, ele estava lá para assistir o grupo que estava cantando na igreja dele, mas ele não tinha ainda participado de nenhuma equipe, daí por conta dessa amizade que foi se formando, eu o convidei para participar de uma das equipes que eu mesmo fui liderar, aí ele veio.

 

O Pimenta era meio gênio, né? Mas ele tinha algumas características que eu acho que eram marcantes, diferentes nele, como, por exemplo, ele era uma pessoa extremamente disciplinada, extremamente estudiosa, ele não se conformava em tocar o violão, que nem eu toco o violão, entendeu?

 

Ele era estudioso, ele tocava e não ficava bom, ele ia tocar de novo, ele ia tocar até sair do jeito que ele queria. Ele queria fazer rimas que não fossem rimas pobres, rimas raras, rimas ricas. Ele estudava o dicionário, eu não conheci nunca ninguém na vida que estudasse o dicionário, eu o vi com o dicionário na mão, lendo, falei, Pimenta, você está lendo o dicionário? Falei, é, estou estudando aqui.

 

Às vezes eu tinha preocupação, porque era uma música tão para frente do tempo dele, e especialmente para frente do entorno evangélico no qual a gente vivia, que eu falava assim, Pimenta, essa música, como é que vai comunicar com as pessoas? Era muito avançado, eu falava, menos, Pimenta, menos. Ele não ligava não, ele me deixava falando sozinho e continuava fazendo as coisas dele.

 

Nas equipes, a gente viajava junto e ele botava todo mundo para fazer exercício de manhã. Falava, pessoal, vamos fazer um joguinzinho aí, vamos para a rua, vamos correr um pouco. Eu me lembro de estar correndo com ele.

 

Ele fala as coisas… Por exemplo, eu estava lembrando de uma frase dele que eu acho magistral, que ele está falando da igreja, às vezes da nossa falsidade, da nossa hipocrisia na igreja. Todo mundo sempre muito bem, você está bem? Oi, tudo bem, tudo bem? Aquela coisa superficial. Ele usa essas palavras, superficial. Ele usa a palavra… A que eu acho magistral é essa, coreografia de aflitos. Ele está falando da igreja. Da igreja, estou dizendo.

 

A igreja somos nós, não estou falando de nenhuma igreja em particular, mas da nossa hipocrisia. E eu nunca tinha parado para pensar nessa frase. Isso aí doeu, porque coreografia de aflitos é assim… Em vez de eu estar andando naquele lugar gostoso em que eu sou vulnerável, eu sou quem eu sou, mas eu estou feliz porque eu estou no meio de pessoas que também são quem elas são, eu vivo num lugar onde eu estou em grande aflição porque eu tenho que manter uma capa, uma máscara e fingir de ser alguma coisa.

 

O Pimenta fazia canções que pareciam querer alcançar um nível de pessoas que pudesse acompanhar, inclusive, a poesia, não só a letra quanto a música. Então a musicalidade dele era sofisticada, era uma bossa nova. Ele tem pegadas nas sequências de acordes dele que todo mundo que eu converso que é músico sabe das coisas.

 

A questão da linguagem, da contextualização da linguagem. Eu nunca perguntei para ele, estou te falando, sem saber se ele tinha isso intencionalmente no coração dele, de fazer uma música para universitários ou para pessoas que pudessem acompanhar isso aí. Evidentemente que ele fez.

 

Meu envolvimento com Sergio era de viajar, de ser amigo mesmo, de ir à casa, porque ele estava em casa, de ter essa parceria de música… tive o privilégio de vê-lo crescer em muitos sentidos.

 

Então ele tinha um carinho muito grande. Quando ele ia para São Paulo, muitas vezes ficava na nossa casa. Então ele conheceu a Sandra, grávida.

 

Depois o Gui nasceu fora do tempo. Foi aquela luta, aquela oração, aquele momento de não saber se ele ia sobreviver e tudo. E depois, quando ele viu o Gui pela primeira vez na igreja, escreveu uma música para o Gui, meu filho, em que ele dizia que ele via, vejo você correndo na igreja, andando na igreja.

 

Então… A gente tinha essa amizade, amizade muito grande. Me convidou para fazer o casamento dele, que foi um casamento muito bacana. O pessoal de Agulhas Negras, os oficiais, amigos dele, vieram para o casamento.

 

O exército o transferiu para São Paulo por um ano. E eu falei, puxa, eu vou aproveitar. Eu estava na minha fase pessoal de estar fazendo cantatas, porque eu estava desacorçoado, porque as músicas eram quase que unidades individuais e você não podia fazer uma obra, não podia escrever uma coisa que tivesse um pouquinho mais de conteúdo.

 

Falei, escuta, vamos fazer uma cantata junto? Que tal a gente fazer histórias do Livro de Lucas, parábolas e informações de Jesus do Livro de Lucas? Ele achou ótimo. Então nós marcamos. Ele morava em um apartamentinho aqui em São Paulo e eu encontrava com ele toda semana por um, não sei quantos meses a gente demorou para fazer aquilo.

 

E ele fazia, em geral, as músicas e eu trabalhava junto com ele com as letras. Ele foi muito generoso de não, não, vamos dizer assim, ele podia ter feito as letras sozinho, pensando, hoje eu devia ter insistido com isso. Mas ele queria que eu fizesse as letras com ele, por conta da amizade, por conta de fazer junto, que tem esse lado, esse lado inexplicável, de que a gente quer fazer, que tem uma coisa boa em você fazer uma coisa, a comunhão, enfim.

 

Quando foi a Páscoa de 87, ele foi na minha casa. Tinha uma casa, não era uma casa grande, mas ajeitadinha em Piratininga, alugada, fiquei um ano lá trabalhando, seis meses na verdade, mas tinha uma piscininha bem gostosinha no fundo da casa. Aí estávamos brincando na piscina. E meus filhos, que eram todos pequenos, queriam que o tio Pimenta, que era fortão, militar, jogasse, eles davam um pezinho assim, jogava para cima, dava uma pirueta, caía na própria piscina. Estava na parte rasa, jogando-os para o fundo. E ele brincou talvez dez minutos, não sei, 15, com os meninos lá.

 

Veio a doença, abril, maio, junho. Junho, por aí ele estava em São Paulo, o Caseira que era médico, diretor dos Vencedores na época, perguntou para ele, vamos fazer um exame completo? Entra aí na sala, fecha a porta, eu já te examino? Já. Examinou, descobriu já esse tumor na coxa, um sarcoma, que é um tumor muito agressivo. Doze de agosto era aniversário do meu caçula, o Gui, que ele viu correndo pela igreja.

 

Acabamos a festinha de aniversário, estavam guardando as coisinhas lá, arrumando a casa, toca o telefone é o Nelson. O Pimenta partiu. Agosto, doze, teve mais um julho inteiro, cheguei a vê-lo ainda no Hospital do Câncer, tem algumas coisas assim, eu estava cantando, regravamos essa música aí do “Lá está o meu tesouro”, que ele fez há muitos anos, bem antes disso tudo, fiquei pensando, ele não imagina, eu tenho certeza de que ele nunca pensou quando fez a canção, que com trinta e dois anos ele ia partir.

 

Porque ninguém pensa isso. Você não tá jovem e de repente fala, ah, tô sentindo mal, acho que eu vou morrer. Não. Mas ele fez uma música que já refletia aquilo que é valor dele, que ele acredita num lugar diferente, na presença de Deus na vida da gente. E na questão de que Lá está o meu tesouro, e não nas coisas todas aqui, que ele tinha muito essa sacada, isso que eu tô falando, ele tinha um senso crítico que ele colocava na letra de uma forma super sutil, você fala assim, não parece, mas é uma maneira de dizer, olha, você tá olhando pro negócio errado, cara. A coisa é outra, é noutro lugar isso aí.

 

Parecia, às vezes, até que o Pimenta tinha um senso de urgência, tanto pela disciplina, uma coisa da disciplina, né? Eu não sei nem quantas músicas eu tenho, eu não tenho um catálogo das minhas músicas, eu não me importo em fazer isso, não é da minha natureza. Ele tinha absolutamente tudo, tudo que ele fazia estava anotado, tinha um caderno, tinha…

 

É gozado, porque ele era mais novo que eu, me considerava assim uma espécie de mentor pra ele em algum sentido, e ele era uma espécie de pai pra mim, porque ele tinha uma cabeça de pai. Aquela cabeça… Tem que fazer isso aqui, gente, esse aqui é o caminho, não é qualquer coisa. Que me ajudava muito, que eu preciso desse outro lado pra funcionar.

 

Eu ter feito o casamento e depois ter feito a cerimônia fúnebre dele, pra mim foi… foi assim… tipo um esclarecimento de um ciclo, assim pra mim, pessoalmente. Como pastor, eu vivo os momentos mais felizes ali, né? O casamento, depois os filhos, e de repente, só não pensei que fosse tão logo, né? Porque você nunca espera isso, né? 32, você não espera, não espera que ninguém vá morrer. E, pra mim foi assim…”

Nelson Bomilcar

“Eu sou Bomilcar, músico, pastor, missionário, escritor. Conheci Sérgio Pimenta em 1975, quando estava na 17ª Equipe de Vencedores por Cristo, na Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro. Desde ali, uma caminhada de amizade, de admiração mútua, de companheirismo, parcerias em produções musicais, em composições, também na existência do Grupo Semente, durante sete anos.

 

Sérgio se tornou um grande amigo, junto com a Sônia, e amigo da família, com nossos filhos, sendo hoje muito amigos, parceiros em diversos projetos e caminhadas ainda, convivendo mesmo que longe. Sérgio Pimenta foi um compositor diferenciado na história da música cristã. Sérgio Pimenta, autor de mais de 300 composições, deixou um legado, um curto tempo de ministério que teve no Brasil, em Vencedores por Cristo, também no Grupo Semente e em parcerias encantadas com o querido amigo também Guilherme Neto.

 

Sérgio Pimenta foi um dos meus melhores amigos, um ser humano extraordinário, generoso, extremamente criativo, ligado no seu tempo e com uma atuação contemporânea e que ainda reverbera até hoje, décadas depois do seu falecimento. Sérgio Pimenta é uma grande referência como pessoa, como cristão, como músico e compositor, uma referência na Igreja e na história da música cristã no Brasil.

 

Ele foi um dos maiores compositores da música cristã brasileira, se não o maior. A voz, de timbre grave inconfundível, e o estilo de tocar, cheio de leveza e arte, eternizaram músicas inspiradas na Palavra de Deus e repletas de sensível poesia. Autor, compositor e poeta, ele tinha uma mente privilegiada e o coração sedento por comunhão com o Senhor e com o Evangelho que abraçou, testemunhou e divulgou.

 

Assim foi Sérgio Pimenta. Em 1987 Sérgio partiu para a glória do Senhor, vítima de um câncer agressivo e fulminante. Tinha apenas 33 anos — e nenhum outro músico cristão produziu legado tão extenso em tão pouco tempo de vida. Ainda moço, fez parte da primeira geração de compositores cristãos com grande repercussão nacional – nomes como Guilherme Kerr Neto, Rubem César de Silva, Jayrinho Gonçalves, Wolô, Aristeu Pires e Artur Mendes, entre outros.

 

Sérgio Pimenta foi presença obrigatória nos álbuns do ministério Vencedores por Cristo. Quico Fagundes, excelente violonista brasileiro e amigo de Pimenta, descreve: “Eram jovens talentos brasileiros, músicos de excelente qualidade. Foi um time de conspiradores, digno das maiores inconfidências, que mudou o perfil da música cristã no Brasil”. Entre os tais conspiradores, Sérgio Pimenta dava vazão à sua genialidade e espiritualidade com canções inesquecíveis, como Cada Instante, Você pode ter, Pés sobre o Vento, Amor e Resposta certa, para citar apenas uma fração de sua grandiosa obra.

 

Entre tantas pérolas, o artista participou de trabalhos memoráveis. Um deles foi o grupo Semente, no qual atuou por sete anos, deixando um rico acervo de históricas produções como os álbuns Plantei a semente, Fruto da Semente e Geração Marcos. Pimenta também presença no LP De vento em popa, lançado pelos Vencedores em 1977, portanto, e considerado, com inteira justiça, o marco que mudou os rumos da música cristã brasileira. Sérgio não renunciava a ritmos tipicamente brasileiros, como samba, baião, valsa, seresta, chorinho e frevo. E deixou fortes influências reconhecida por outros músicos cristãos de expressão que gravaram composições suas, como Wanda Sá, Jorge Camargo, João Alexandre e Gerson Ortega, além do Quarteto Vida e de Cia de Jesus.

 

Sérgio Pimenta também deixou preciosa herança familiar: seus filhos Renato e a dentista Juliana, de 21, fruto de sua relação com Sonia Dimitrov, uma descendente de búlgaros com a qual casou-se em 1982. Embora mal tenham convivido com o pai, Juliana ainda era bebê quando Sérgio morreu – e os dois também são músicos.

 

Sérgio Pimenta foi um cristão sincero, poeta e compositor com mais de 300 músicas. Nenhum outro artista evangélico produziu obra tão extensa em tão pouco tempo de vida.”

Cid Pereira Caldas

“Todos temos nossas memórias de infância, adolescência, de fases da vida, do melhor, do pior, mas principalmente de pessoas.

 

Eu, uma criança de cerca de 8 anos e Sérgio já um adolescente estudando no Colégio Militar.

 

Nos domingos minha família sempre ia para a casa de uma tia de minha mãe (Nely e Aldo Schramm) no bairro de Vicente de Carvalho, subúrbio da Cidade do Rio de Janeiro. Lá era uma verdadeira casa do tesouro para um menino bagunceiro. Árvores frutíferas para subir, o velho Ford bigode do tio-avô, a liberdade de andar na rua.

 

Mas, algo era especial, na frente da casa de minha tia avó morava a família do “seu” Pimenta. Gente que se reunia do lado de fora da casa e passavam parte da tarde do domingo sorrindo, sorrindo muito. Como eu gostava de estar ali!

 

A casa do lado, salvo melhor juízo era do seu Silas e dona Ilza. É claro que eu entrava ali também. Amigos de minha mãe. A lembrança que tenho de Sérgio chegando, nem dava tempo de tirar a farda, pegava o violão e começava a tocar e aquilo virava para mim uma audição particular. Eu já começara a aprender piano e a forma de tocar me animava a continuar estudando. Aquilo fazia sentido para mim, mais do que os exercícios de Hanon e Czerny que eu era obrigado a tocar.

 

Rápido ele virou meu ídolo – jovem, militar, músico e muito carinhoso. Por que ele tinha que dar atenção para um molecote? Mas dava.

 

O tempo passa, as boas lembranças ficam. Volta e meia encontrávamos Ilsi, dona Ilza e, eventualmente o Sérgio.

 

Na juventude fiz uma música para um festival de música e, é claro, Sérgio fez o arranjo e Ilsi cantou. Até hoje não engulo o resultado – fomos o 2º colocado em meio a cerca de 40 músicas! Sérgio me disse: “Descansa, essas coisas são assim. O que importa é a música que você fez para Jesus”!

 

Os anos se passaram, chegou o tempo de casar-me com Ana Lucia. É claro, que na escolha dos padrinhos tinha que ter o Sérgio. Que azar o nosso! Casamo-nos no dia 12 de dezembro de 1986. Dia da primeira greve nacional no Brasil pós-ditadura (ou como quer que você chame). Adivinha? Sérgio, como militar, estava de plantão e Sônia com Juliana recém-nascida. Mas, ele aparece no final do casamento de calça jeans e camiseta para nos dar um abraço. Meu ídolo da infância estava presente. Eu falo: “Sérgio, vamos tirar uma foto”. Ele responde: “Não estou vestido de forma apropriada para tirar foto no seu casamento”. Quase chamo dona Ilza para obrigá-lo, mas seu olhar cansado, mostrava que o dia tinha sido extenuante e sua consciência de propriedade e disciplina lhe direcionavam a agir assim. Nos deu um afetuoso abraço e….voltou para o quartel!

 

Não sei que memórias as pessoas deixam em você, mas Sérgio para mim era carinho, alegria, aconchego, seriedade, qualidade musical e possibilidade.

 

Hoje, compartilho da bênção de ter a companhia de Ilsi, sua irmã, como membro da igreja que pastoreio. Ele, vou encontrar daqui há pouco.

 

Mas, sempre mantive no meu íntimo o desejo de consolidar sua obra num registro que continuasse a abençoar pessoas que, como eu, foram abençoadas.

 

Dou graças a Deus porque Sônia, Renato e Juliana toparam dar vazão a minha loucura e realizar no dia 07 de novembro de 2025 uma apresentação no Auditório Rui Barbosa no Mackenzie em São Paulo. Uma apresentação com as novas gerações cantando as músicas de Sérgio Pimenta. E, no dia 08 de novembro, ter mais duas apresentações com aqueles que tiveram o privilégio de conviver e tocar com o Sérgio, além da participação da família, é claro. Sônia e Juliana cantam, Renato toca e Giovana (filha de Juliana e neta de Sérgio) canta também.

 

É claro que tudo isso é a certeza de que todas as músicas e a vida de Sérgio tinham um alvo – a glória de Deus!

 

É claro que tudo isso tem um objetivo como também tem as músicas de Sérgio – glorificar o Senhor Jesus!”